Essa Porra de Vida

Interlúdio para um bar de esquina (ou: a Voz que vem da serra)

perdão

… por algo sombrio com dedos e garras em torno do pescoço, algo que veio de dentro, veio do estômago, e um grito subiu-lhe a garganta. Interrompido, rasgou-lhe a face, queimou o passado, uma história longa demais para ser contada.

Sabia que algo não estava bem, lá dentro sabia perfeitamente que algo dentro de si não estava nos eixos. Noites insones, fissuras na pele. Aquilo que por dentro estava azedo começava a sair. Abraçou os joelhos, sentado em posição fetal e se sentiu tolo, imensamente tolo. Pensava nela, manhãs com cafés, pão com manteiga, a máquina de costura, a tubaína repartida pra cinco. Ou então no vazio, no silêncio dos almoços, nos jantares solitários, cada qual com seu prato, cada prato em uma mão, cada mão em um quarto.

Queria ligar a alguém, a alguma alma que pudesse chamar de sua, e irradiar aquela impotência para longe, expulsar a ânsia com gestos, com protestos. Nada ocorreu, não havia para quem ligar, e era 03:28 da madrugada, ninguém atenderia porque amanhã é dia do operário, bater cartão dizer sim senhor, não senhor, sim senhor, não senhor. A meta foi batida, o relatório foi entregue, a vida está sendo gasta. Estou morrendo e o senhor está lucrando, que bom, que bom, que bom que a vida é assim, não dá tempo de cagar, nem de pensar, nem de sentir.

Mas ele sente, está acordado faz mais de 36 horas sentindo coisas que a cocaína não aplaca, a cerveja não resolve, o doce não colore. Puta que pariu ele está repetindo, que caralho, que caralho, porra, que merda. Porque ela teve que morrer antes do fim? Porque acabou assim? Havia tanto a se dizer, sempre há, mas as desculpas tinham que ter tempo de sair.

Ele se culpa, depois culpa o irmão, culpa a si de novo, culpa o barbeiro da esquina, culpa o pai, a mãe, Jesus e os apóstolos, a virgem Maria mãe de Cristo também carrega culpa por uns 6 minutos, e a culpa volta, porque quando ele dormir e acordar a cama estará vazia de calor, de significado, de amizade, amor, cheiros e cabelos.

É quando o coração palpita, a mão sua. Não é nada demais, exceto a vontade de dar sentido a vida. E ele não consegue, se levanta, anda de um lado para o outro do quarto, sozinho e calado, confuso, perdido, mas aos 16 somos todos perdidos, ele não sabe ainda, só saberá quando for duas vezes mais velho, e os calos forem sua bandeira, as marcas contarem histórias estranhas.

É uma crise que se avizinha, não de pânico, de existência. Imaturo como é, soca as paredes, quebra os ossos das mãos, e não para, parte para o guarda roupa, e o destrói com socos e pontapés, e é quando o instinto não pode mais ser reprimido, sai feio e cruel, e então começam as cabeçadas dadas contra a parede.

Aparece alguém, anos depois, muitos anos depois, uma vida inteira depois, e pergunta o que está acontecendo, e ele ri como um demônio riria. A voz se aproxima, os murros param, o sangue escorre, a porta abre, a boca que fala aparece – e é uma boca azul – e pergunta o porque daquilo, e é uma voz inquisidora, maravilhosa, fantástica, terrível, moralista, e ele não sabe responder, porque não há resposta, há vergonha, ele sabe, ele fez bobagem, e também sabe que todos fazemos bobagem, e é a bobagem que nos define e nos forma.

A boca pergunta, a voz sai dela até ele, que treme e tremendo não responde, se prostra como um pecador no confessionário, cabeça baixa. Ele busca lágrimas. A boca para de comandar, e os braços da boca se abaixam e o abraça ternamente ainda que com amor e em censura. E diz:

– Vamos todos morrer, não duvide. Até lá, se perdoe e trate de sorrir.

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2 comentários em “Interlúdio para um bar de esquina (ou: a Voz que vem da serra)

  1. Samuel
    abril 15, 2016

    …Existem coisas boas na vida, além da morte! Um bom e acalentador abraço! Nas horas negras, obscuras e vazias, enchem a alma!…

    • Rafael
      abril 16, 2016

      claro que há! o perdão e o abraço, por exemplo!

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Publicado às abril 15, 2016 por em conto e marcado , , .
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