Essa Porra de Vida

Precisamos falar sobre o Brasil (ou: Quando eu quis ser Kafka).

brasil

Minha vontade é ser Kafka. Eu sei, quero pouco, mas por hora ser Kafka me basta. Em seus diários ele diz:

Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde fui nadar.

Faz 33º em Campo Bom/RS com sensação térmica de quase 40º, fácil. Queria então ir nadar hoje, de preferência ao lado da minha gata, Bruna Herold e meus grandes amigos Michel, Carlos, Luiz, Igor, Rafael, Jeronimo, Gabriel. Mas nem nadar eu sei.

E hoje o Brasil declarou guerra ao Brasil.

E eu não sou escritor. Sou filósofo. E de todos os campos possíveis da filosofia – de metafísica a epistemologia – eu estudo política. Especificamente as categorias de poder e violência. Quer dizer, eu abro qualquer site de notícia e meu objeto de estudo grita na minha cara. O mesmo acontece quando saio as ruas para comprar pão.

No momento eu gostaria de poder contribuir mais com meu país e desfazer algumas confusões que percebo, estão correndo por ai. Creio que a desinformação neste momento é o inimigo a ser combatido. Não tenho todas as respostas, mas esse emaranhado que virou o país pode ser melhor entendido se conseguirmos desfazer alguns pontos importantes sobre tudo que está acontecendo.

 

Ponto 1: Nomeação de Lula.

Sobre esse fato convém dizer algo. Primeiro: a nomeação de Lula vinha sendo sondada no Planalto desde agosto passado. Segundo: a presidente Dilma tem a prerrogativa de nomear quem bem entender para ser seu ministro. Terceiro: toda nomeação política em uma democracia moderna tem como finalidade a conciliação e a articulação política entre os três poderes independentes, Legislativo, Judiciário e Executivo. Trocando em miúdos, toda nomeação política tem como finalidade garantir a governabilidade, e a nomeação de Lula cumpre essa condição.

Porém Lula é um ex-presidente. Mais que isso, é um ex-presidente que está sendo investigado. Portanto a pergunta que cabe fazer é porque sua nomeação se dá exatamente na semana em que sua prisão preventiva é pedida pelo Ministério Público de São Paulo. Para essa pergunta não tenho resposta, então especulo. Sua nomeação se deu para que seu julgamento não seja em São Paulo, ninho dos tucanos – PSDB – mas antes em Brasília, onde o governo federal tem uma melhor articulação.

É necessário dizer que Lula continua sendo investigado e se condenado pode ir preso. Como ele será condenado pelo Supremo Tribunal Federal, caso seja condenado, ele perde o direito a recorrer e vai preso rapidamente, como Dirceu por exemplo.

 

Ponto 2: Pedido de prisão de Lula.

Todo e qualquer cidadão pode e deve ser investigado sempre que sobre ele recaia qualquer suspeita. Lula sendo um cidadão como outro qualquer pode e deve ser tratado da mesma maneira. E está sendo. As instituições brasileiras tem usado suas ferramentas para investigá-lo e também para solicitar sua prisão preventiva. Até aqui nada errado.

Agora Lula, como cidadão tem o direito a fazer o mesmo, ou seja, usar todas as ferramentas a sua disposição para se defender. E ele o fez, quando aceitou ser Ministro da Casa Civil.

Aqui você deve escolher um dos dois argumentos: ou todas as ferramentas estão liberadas para ambos os lados – instituições brasileiras e Lula – ou algumas ferramentas estão proibidas para ambos os lados – instituições brasileiras e Lula. Isso é um princípio básico do Estado democrático de direito.

Acha que não devia ser assim? Concordo. Mudemos a Constituição portanto. Porque o seguimento da Constituição tenta garantir que você tenha um julgamento justo.

 

Ponto 3: Ministério Público (de São Paulo).

O Ministério Público de São Paulo foi responsável pelo pedido de prisão preventiva de Lula. Ele pode fazer isso e o fez. Até então, nada errado.

Porém, sobre esse ponto o nó a ser desatado é acerca das motivações do Ministério Público de São Paulo. A pergunta que precisa, e creio, deve ser feita é: porque o Ministério Público de São Paulo é tão rápido para julgar casos que envolvem o PT e tão devagar para julgar casos que envolvam o PSDB.

Casos como o Tremsalão, Reorganização Escolar, Abusos da PM paulista, Caso Sabesp, Desvio de Merenda continuam sem ser investigados. E creio, jamais o serão.

Isso para não citar o juiz que fez o impedimento da posse de Lula como ministro posando em desfiles contra o PT, e publicando em seu Facebook, todo tipo de postagem antiPT. Ele pode se manifestar politicamente, mas deve então ser declarado que este não possui mais capacidade para julgar políticos do PT ou do PSDB por motivos óbvios.

A pergunta então que precisa ser feita está posta. Porque os casos do PT são tão rapidamente julgados e os do PSDB não?

Minha resposta imediata é que o Ministério Público de São Paulo – entre outros – é aparelhado – leia-se dominado – pelo PSDB. Se há outra resposta, desconheço.

 

Ponto 4: Papel da Mídia.

Andei pesquisando muito sobre isso. Muito mesmo. Ao menos uma hora e meia por dia, nos últimos oito anos. Posso dizer com um certo grau de convicção que há canais visivelmente governistas – PT – e outros visivelmente antigovernistas – antiPT, ou simplesmente PSDB.

Carta Capital, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, Paulo Henrique Amorim por exemplo, são canais governistas. As críticas ao governo do PT são sempre muito leves. Aos governos do PSDB são sempre muto pesadas.

Veja, Globo, IstoÉ, Estadão, Zero Hora por exemplo, são canais antigovernistas. Aqui a lógica se inverte. As críticas aos governos do PT são sempre muito pesadas e aos partidos de oposição – PSDB – são sempre muito leves.

Temos uma mídia que mente. Mente muito e muitas vezes mente mal. A única diferença é que os canais governistas tem um alcance pequeno e os canais antigovernistas tem um alcance gigantesco. Ninguém duvida que uma  reportagem de meia hora no Jornal Nacional com o Bonner e sua voz aveludada tem mais alcance que um vídeo no Youtube gravado pelo Paulo Henrique Amorim dizendo com sua voz de pato “olá tudo bem?”.

Se você me acompanhou até aqui, creio que você entendeu que os canais antigovernistas possuem um alcance maior.

 

Ponto 5: O Povo.

O povo brasileiro é em sua maioria um povo com sérias deficiências em sua educação política. Seja ele branco ou preto, rico ou pobre, petista ou psdbista. Não importa.

Apenas 25% dos brasileiros sabem ler, escrever e fazer contas sem dificuldade. Entre os que sabem ler e escrever apenas o próprio nome – hoje correspondem a 73% da população – 65% tem algum tipo de dificuldade. 32% dos brasileiros formados no ensino superior não são plenamente alfabetizados. Apenas 8% dos brasileiros possuem a alfabetização plena, ou seja, leem e compreendem qualquer tipo de texto, mesmo os mais difíceis.

Não quero ser elitista, mas o povo de meu país parece simplesmente incapaz de compreender o jogo político por insuficiência escolar. Culpa de governos, escolas e professores – como eu.

Esse brasileiro que lê e não entender, e pior, não sabe que não entende, liga a Globo e vê o Bonner & Cia derramando notícias contra o governo e o máximo que faz é dizer amém.

Não estou defendendo governo, tampouco o atacando. Antes estou narrando fatos.

 

Ponto 6: A Crise.

Ela existe. Não é invenção. Mas creio, a crise é política. PMDB, ‘aliado’ do governo Dilma se mobiliza com partidos de oposição como PSDB e travam o Congresso.

A essa altura da vida você deve saber que os projetos que fazem o país andar ou travar dependem do Congresso, não da presidente. O máximo que Dilma pode fazer é orientar os rumos da economia no País. Se as orientações serão seguidas, o Congresso decidirá. E desde o segundo mandato ele tem decidido que não seguirá orientação nenhuma da presidente. O que é legítimo. O Congresso tem liberdade e independência de ação. A menos que as ações dos congressistas tenha motivações antiéticas, como por exemplo aprovar ou barrar leis que vão de encontro aos interesses particulares.

E é o que vejo.

Vejo uma presidente inábil politicamente e um Congresso que aprova ou desaprova medidas que atendem apenas ao interesse próprio.

Essa crise política paralisou o país, e estamos sofrendo com isso.

 

Ponto 7: A Corrupção não é o principal problema.

A corrupção é um problema e dele ninguém dúvida. Ela consome 67 bilhões por ano. Mas em compensação o orçamento do país em 2014 era de aproximadamente  2 trilhões . O que gastamos em corrupção é um problema, mas um problema menor.

Todo ano o país torra 900 bilhões pagando dívida pública de um acordo político selado por Fernando Henrique Cardoso quando este era presidente. Tem que ser pago, mas gastar 45% do orçamento com dívida quebra qualquer um. Devemos repensar e renegociar esses valores e rápido.

Protestar contra a corrupção, achando que sem corrupção o país estará as mil maravilhas é uma ingenuidade. Devemos compreender melhor os gastos públicos antes de colocar patos gigantes na Av. Paulista.

 

Ponto 8: Lava a Jato.

Sérgio Moro pode e deve investigar toda e qualquer suspeita de irregularidade. Ele e todo juiz. Mas toda e qualquer suspeita é toda e qualquer suspeita. Não apenas do PT.

Aécio foi citado seis vezes por exemplo e todas as citações foram esquecidas por Moro e também pela mídia.

Não sendo assim se acreditará que Moro é sim, parcial e julga politicamente, ao invés de julgar juridicamente. E se o seu julgamento for político ele perde toda validade, claro.

Portanto, ou Moro e a Lava Jato investigam por igual políticos do PSDB e do PT ou eu passo a ter motivos para crer que esse julgamento não é algo a ser levado a sério.

 

Ponto 9: Os Grampos.

O juiz Moro realizou escutas nos telefonemas entre Dilma e Lula – até onde se sabe ilegais, mas essa informação ainda precisa ser apurada – e no mesmo dia em que as conseguiu as entregou a Rede Globo. Essas escutas não foram ouvidas, não foram analisadas e não foram estudadas. Apenas entregues. No mesmo dia em que Lula seria nomeado Ministro da Casa Civil.

Algo estranho, pra não dizer suspeito.

Não custa lembrar que a Rede Globo apoiou e se beneficiou de nossa Ditadura Militar.

 

Ponto 10: A Ética.

É profundamente antiético um ex-presidente investigado no papel de ministro. É igualmente antiético uma presidente que nomeia seu antecessor como ministro. É antiético um juiz que julga por critérios políticos. É antiético um povo que se manifesta sem o mínimo de educação política.

Nosso país passa por uma crise ética, como deve ter ficado claro. E é pela ética que o resgataremos. Mas ética se constrói com diálogo e alteridade – o princípio de julgar o outro por seus valores.

Não por imposição ou através de gritos de Petralha ou Tucano.

Mas pelo que vemos, está um pouco difícil esse diálogo.

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Publicado às março 17, 2016 por em coluna e marcado , , , , .
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