Essa Porra de Vida

Porque eu não me mato

andarilho

“Almas despedaçadas, unam-se. Nós temos a nós mesmos esta noite.” – Pearl Jam, Leash.

Porque eu não me mato? É assim que Camus começa sua obra, O Mito de Sísifo. 

Uma excelente e perigosa pergunta. Vejamos se consigo responder.

Eu creio que todos devemos seguir o exemplo de Thoreau e cortar da vida tudo que não é vida. Isso se faz acuando a própria vida num canto, pressionando-a contra a parede para olhar diretamente em seus olhos e ver o que ela te revela como essencial. Deve-se libertar então o que não for vida.

A coleira deve ser solta e com isso algumas coisas devem sair. No meu caso, a Angústia deve sair. Me disseram essa semana que há em mim muita Angústia. Fiquei alguns minutos sem reação, e até mesmo chorei um pouco, primeiro porque eu, e creio, somente eu, sabia dessa Angústia; segundo porque preferia não olhar pra ela. Minha Angústia me assusta. Sempre preferi olhar para a Fúria e para a Ira, pois eu as aceito e com elas convivo desde o fim da infância. São velhas amigas.

Entre os romanos por exemplo, as Fúrias são a personificação da justiça sobre os mortais, nascidas do sangue de Gaia, mãe de todos os deuses e titãs. As Fúrias viviam nas profundezas do Tártaro, assim como minha Fúria também vive profundamente em mim.

A Ira, um dos pecados capitais, é menos glamourosa. Apenas um intenso sentimento de ódio e rancor. Mesmo assim com ela convivo e até certo ponto a tolero aqui.

Assim o é porque gosto de imaginar que Fúria e Ira são meus combustíveis. Sempre que preciso, que estou nas cordas com os joelhos fracos, boca frouxa depois de algumas pancadas, eu as queimo junto com a bílis, me levanto e sigo em frente com os dentes trincando.

Já a Angústia me assusta. Ela é abafamento, insegurança, ressentimento e dor. Isso quem nos diz é Schopenhauer e Nietzsche. Creio que Freud também.

Foi a Angústia que me levou ao quase suicídio. Ela também me trouxe doses enormes de culpa, afastamento e por fim isolamento.

Isolamento de mim comigo mesmo. Há um Rafael preso dentro de mim. Deixar a Angústia sair é também deixar uma parte minha sair; é reconstruir a mim mesmo, construir novos valores e por fim uma nova vida. Mas é necessário que ela saia, e falar disso publicamente me ajuda. Foi assim com minha Síndrome do Pânico por exemplo.

Minha resposta portanto Camus, é que por mais medo que eu possa ter ao revisitar sentimentos antigos e densos, a tarefa de construir minha própria existência é fantástica, e responder a pergunta “porque eu não me mato?” é também responder a outra pergunta: “qual o valor da minha vida?“.

O valor da minha vida é construir para mim e para as pessoas a minha volta uma existência que busque o máximo de felicidade possível com o mínimo de sofrimento possível. Para isso preciso me resolver comigo mesmo e com minha Angústia. Para isso tenho que refazer a mim mesmo, e que assim seja.

Por fim, a mesma pessoa que me falou sobre minha Angústia também me disse que o Rafael aqui dentro é melhor que a encomenda.

E eu acredito.

 

 

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Publicado às março 5, 2016 por em coluna e marcado , , , , , , , .
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