Essa Porra de Vida

Eu e a morte (ou: Como vim a me tornar Rafael)

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Turim, outono de 1888. Nietzsche termina de escrever as raias da loucura Ecce Hommo, que além de sua autobiografia, são também as palavras de Pôncio Pilatos dirigidas ao Cristo pouco antes de ser crucificado.

Lá, nos diz Nietzsche, em alto e bom som, meio louco, meio não, que chega um momento da vida onde devemos responder a seguinte pergunta: como nos tornamos aquilo que somos? Mas ele continua em tom de aviso, como se escrevesse uma velha saga escandinava: nada é mais perigoso do que ver a si mesmo cara a cara enquanto busca essa resposta. Uma tarefa perigosa, a mais perigosa, e portanto uma coisa de filósofos e poetas.

Por sorte sou ambos, ainda que filósofo em construção e poeta mediano e amador.

A busca dessa resposta foi o que levou Thoureau para a mata a fim de viver com pouquíssimos recursos, comendo o que estivesse mais próximo a mesa, sendo, em suas palavras, inspetor dos caminhos e tempestades. Além de filósofo e poeta, quero também ser inspetor de caminhos e tempestades. Quero ser muitas coisas, pois desejo crescer para o Sol, e agradeço a Eugênio de Andrade por este pequeno verso, bem como a Eduardo Marciano por me apresentá-lo.

E nesse caminho de saber como sou o que sou, há de se mirar na morte, pois é olhando para a morte que a vida ganha em força e importância, assim falou Zaratustra:

Eu vos predico a morte necessária, a morte que, para os vivos, vem a ser um aguilhão e uma promessa.

O que cumpre morre da sua morte, vitorioso, rodeado dos que esperam e prometem.

Aquele que cumpre seu destino, sua promessa, é aquele que morre sua morte vitorioso, já sabiam os gregos dos tempos idos de Diógenes de Sínope, Epicuro de Samos e Aristipo, o hedonista.

A tarefa de ser eu mesmo até o dia de minha morte, de me tornar aquilo que sou, torna-me comprometido a ser eu mesmo todo o tempo. Seguir Kafka quando este diz que devemos escrever o que vivemos e viver aquilo que desejaríamos escrever.

A minha vida é pois uma obra dedicada ao que Michel Onfray chama de Egodisseia. Tal qual Odisseu – ou Ulisses, se preferir – lançando-se ao mar em busca de sua casa, Ítaca, lanço-me a vida com igual coragem, destemido, em busca de Rafael, encontrando locais e pessoas as quais sou grato por me ajudarem em minha Odisseia particular – minha Rafadisseia – sendo a elas fiel por questão de princípio. Afinal não nos ensina Kierkegaard que a perfeição em si mesma consiste, pois, em participar completamente na totalidade?

E perfeito por participar na totalidade, eu à aqueles que me cercam, vou de encontro ao essencial da vida, retirando dela o que não é vida, a encarando por fim em seus termos mais simples e rudimentares, caminhando por onde os Grandes caminharam, sentindo-me merecedor de ver aquilo que eles viram, sentir o que sentiram, para finalmente e por fim ser tão grande ou maior do que eles foram.

Os Grandes do passado, ao passado pertencem. A mim e aqueles que me cercam, foi-nos herdado esta era e estes tempos, que embora tortos, nos pertencem e deles fazemos o que quisermos. Serei o deus que também é vento, árvores em pânico, o deus que levanta a poeira do caminho e que faz voar, exatamente como diz os versos de Leminski, ao ser exatamente aquilo que sou, uma pessoa simples, destas que passam despercebidas, estas que estão a mudar o mundo.

Desta feita morrei em paz, eu tornado eu mesmo, como um Destino, um Aguilhão e uma Promessa, vitorioso sobre a vida por fazer o que tantos outros se recusam.

Vive-la.

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Publicado às março 1, 2016 por em coluna e marcado , , , , , , .
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