Essa Porra de Vida

O chão, a luz, o retorno e o alimento do coração.

smileSe você tem coração, já deve ter sentido uma coisa querendo sair do peito. Mas ter coração é raro, a maioria não tem porque precisa pagar a hipoteca da casa, prestação do carro, escola dos filhos, viagem do fim de ano, e se mal sobra tempo pra dormir, comer, que dirá para ter um coração.

Ter um coração é coisa rara e complicada. Tem que dar de comer, senão morre, e há muitos alimentos do coração. Música, poesia, literatura e as vezes até outra pessoa, mas nesse caso último, é ainda mais raro. Muito raro alguém que sirva de alimento para o coração e o mantenha batendo, suave ou forte, vivo e quente. Há muito veneno que se passa por alimento.

A maioria de nós passa a pensar em algum momento sobre coisas como paz e riqueza, mas Walt Whitman nos alerta sobre isso dizendo

não devemos deixar nossas crianças pensarem na paz e na riqueza,

devemos ser terror e carnificina, e que assim seja.

Demorei a entender esse verso, e talvez não o tenha entendido da forma correta, mas ser terror e carnificina é ser um tipo violento. E todos sabemos que não há nada mais violento que a filosofia e a poesia. A filosofia nos cobra coisas terríveis, e por isso belas, e que assim seja.

A filosofia me cobra ser filósofo 24 horas por dia, até mesmo quando levo minhas roupas a lavanderia ou compro pão na padaria. Me cobra estar a altura daquilo que penso, falo, ensino. E eu tenho dito e também pensado que devemos estar atentos para o fato de que o chão é um ensino, como diz Manoel de Barros. Penso e digo como Leonard Cohen que nos ensina que há uma rachadura em cada um de nós e é por ai que a luz entra. Não nada errado então em ir ao chão e se quebrar de vez em quando.

É o que acontece com tipos violentos. As vezes apanham, vão ao chão, se quebram todo, e então a luz entra. Não barre a luz, e há muita luz no mundo, não deixem que te enganem. Mas para isso é preciso ter olhos de peixe verde, como no poema de Eugenio de Andrade. Olhos de peixe verde são olhos que podem tudo porque são olhos impossíveis. Se o sal das lágrimas nos gasta os olhos, o alimento do coração os torna peixes verdes.

Com esses olhos somos capazes de enxergar a luz. Toda a luz.

Não se assuste diante da luz da mesma forma que faria diante das sombras.

Essa Porra de Vida é e sempre será uma exclamação, nunca um lamento. A ele retorno a fim de exclamar coisas da vida com a certeza de que hoje as coisas que querem sair de mim são as sombras. Elas estão se contorcendo aqui, mas hão de sair na medida que a luz entrar, e ela está entrando a medida que meus olhos estão se tornando olhos impossíveis, olhos que são peixes verdes. E meus olhos estão assim se tornando porque há quem está a alimentar meu coração.

Certo Bruna Herold?

 

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Publicado às fevereiro 25, 2016 por em coluna e marcado , , , , .
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