Essa Porra de Vida

Perdemos a capacidade de amar

Onde foi parar a nossa capacidade de amar? Minha inclusive.

É isso que venho me perguntando faz um bom tempo e com cada vez mais frequência.

Eu não consigo compreender direito o que se passa conosco, com a Humanidade.

Olhando a realidade nossa volta, olhando as ruas, as vielas, os bares, cemitérios, misérias, escolas, prisões, sertões, favelas há tanto para nos causar comoção.

Tanto.

Há a fome, a falta de água, a falta de futuro. Muita coisa falta. A Amazônia sendo dizimada, as enchentes anuais no eixo Rio-SP, as cracolândias. Aliás, sobre as cracolândias, vale citar o trabalho do fotógrafo italiano Alessio Ortu, com usuários de crack no centro de São Paulo, chamado Simulacrum Praecipitii (A imagem do abismo, em latim).

crack

Uma das coisas que chamou a atenção do fotógrafo foi exatamente a cegueira seletiva de paulistas e paulistanos para a degradante situação dos moradores de rua do centro velho de São Paulo. As pessoas passam apressadas vindo de qualquer lugar, indo para lugar nenhum e a miséria da condição humana não toca mais ninguém. Criolo está certo, Não Existe Amor em SP.

Mas, já pedindo o perdão do melhor músico brasileiro, eu preciso acrescentar. Não Existe Amor em BR.

Peles e olhos estão amortizadas. Estamos vivos, mas se estivéssemos mortos não mudaria muita coisa e quase ninguém notaria a diferença.

Essa semana apareceu na rede uma das imagens mais tocantes do mundo. Uma criança síria confunde a câmera fotográfica com uma arma e se rende. Há tanta coisa escrita naqueles olhos tristes, naquelas bochechas.

criança

A comoção sobre a imagem durou alguns milhões de curtidas, milhões de compartilhamentos. E pronto, a vida seguiu.

O que eu quero falar, mas ainda não consigo direito por não entender ao certo, é como as pessoas se indignam mais com a gasolina a R$ 3,60 do que com a fome. Como a conta de luz reúne mais gente revoltada do que os viciados em crack. De que forma preço do dólar é mais relevantes que vida humana?

A classe média está presente em todos os jornais, com suas pautas escancaradas nas primeiras páginas, seja na versão impressa, seja na on line. Veja, Folha, Estadão. Zero Hora, Época, G1, Pragmatismo Político, Brasil 247, DCM.

Se a pauta da classe média fosse o combate a fome, esses jornais fariam reportagens sobre. Se a pauta fosse a tragédia de homens e mulheres que perderam tudo e passaram a morar na rua, idem.

Não estou dizendo que o preço da gasolina ou da conta de luz não seja importante, claro que não. Nem que devamos dormir chorando em nossas camas pensando nas dores do mundo.

Mas me incomoda saber que na ordem de indignação coletiva essas pautas não aparecem nem na esquerda, nem na direita, nem em lugar nenhum. Os protestos do dia 15/03 ou do dia 13/03 são uma expressão disso. Milhões de pessoas foram as ruas nas duas datas, e nenhum cartaz foi visto lembrando que há moradores de rua famintos de comida mesmo, não de poesia. E que essa situação não vai melhorar com o dólar a R$ 1,50 tampouco com a leitura de um texto marxista de 1917.

Eu quero estar errado, mas creio que falimos como seres humanos. Não conseguimos concretizar a missão contida no verbo infinito que é o “ser”. Se um dia fomos humanos, isso foi há tanto tempo que não há registro disso na nossa história, porque eu vejo o passado ainda pior do que o presente.

Mas não quero ser pessimista, ao contrário, desejo estar, de fato, errado.

Maravilhosamente errado.

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Publicado às abril 2, 2015 por em crônica e marcado , , , , .
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