Essa Porra de Vida

Minha ida ao médico

ida

Eu era um homem doente. Sei que a minoria que já leu Dostoieviski vai relacionar isso com o começo de um de seus livros, mas é uma minoria tão minoria que não me dou ao trabalho de pensar em um começo original pra isto.

Eu era um homem doente então e portanto. Tinha dores horríveis, que me traziam suores e tremenda agonia. Havia noites em que me revirava por horas a fio, segurando as tripas dentro da barriga, com medo de que um simples peido as pusesse pra fora, via anal.

Apenas aqueles que como eu sentiram dores assim sabem o terror da dor. Não eram dores contínuas, mas me sobrevinham sem sobreaviso. Vinham como um maremoto, como um tsunami, como uma ereção, uma força da natureza, poderosa, destruidora, impossível de ser parada. Não dava sinais, nada. Apenas vinha e eu caia vítima da dor que se alojava em minha barriga, debaixo de tanta pele, tanta gordura, tão pouco músculo.

Eu pesava exatos 221 kg e media 1,75 m. Minha barriga, ou pança, ou bucho, ou chame como quiser, nada mais me ofende, tinha 1,35 cm de circunferência, e abaixo de tantas camadas de gordura branca, flácida, uma dor irrompia e eu ia geralmente ao chão, sem pudor.

Certa vez, no ônibus, sentado em um par de assentos, com os olhares suspeitos e irritados dos outros passageiros, a dor veio e eu fui ao chão ganindo como um cachorro, como um pato que é estuprado, como Patty Smith cantando Birdland, – uma das melhores músicas já feitas pelo ser humano – e ao ir ao chão derrubei duas mulheres e uma criança junto comigo. Uma das crianças ficou presa debaixo de minha perna, chorosa, enquanto eu me debatia sem controle, em meio a espasmos e espasmos. A criança tentava se livrar de minha perna cheia de varizes, mas em vão. Era muita gordura para aqueles músculos frágeis de criança.

Por sorte o cobrador viu o pobre garoto roxo sem ar se debatendo junto comigo e o socorreu. Quando finalmente pude me levantar livre da dor os olhares de reprovação pairavam sobre mim. Podia ver as manchetes nos jornais: homem gordo mata criança sufocada com sua gordura.

As dores seguiam cada vez mais fortes, e eu teimosamente se recusava a procurar um médico, receoso de que minha morte seria decretada. Em minha cabeça rala de cabelos eu via um homem de jaleco branco, grisalho me dizendo que aquelas dores era um tumor estourado jorrando sangue podre e pus dentro de meus intestinos, e que eu tinha apenas duas semanas de vida. Deveria aproveitar da melhor maneira possível. Ainda nos meus sonhos eu saia do consultório direto a um rodízio de carnes e comia e comia e comia e comia e comia e comia e comia e comia e comia e comia e comia até o dono do lugar se arrepender de cobrar por pessoa, não por quilo.

Minha mãe então me ligou após saber o que se passava comigo através de meus amigos do escritório e criei vergonha na cara. Fui ver o médico. Marquei pra duas semanas e paguei adiantado a consulta, pois eu não tinha plano de saúde. Não queria também ficar dependendo do SUS.

Tolerei a dor como pude e me senti um espartano nas Termópilas encarando as hordas de Xerxes.

No dia marcado fui ao consultório, sendo milagrosamente atendido na hora exata.

– Bom dia, eu disse ao doutor sentado em sua cadeira.

O doutor parecia alguém muito velho, velho demais pra estar vivo. Sua aparência era inclusive a de alguém que já morreu faz muito tempo. Mas ele respondeu, donde conclui que estava de fato vivo.

– Bom dia, ele me disse e sua voz era rouca de sabedoria.

– Tenho dores na barria doutor, e dizendo isto mostrei onde doía. Era perto do umbigo, mas minha mão quase não alcançava. Meus braços não aumentaram de tamanho junto com minha barriga. Aliás, fazer cocô era sempre muito difícil, pois limpar minha bunda era uma tarefa horrorosa. Não vou revelar como agora.

O doutor me apalpou calma e firmemente, por vários segundos, perguntando onde doía mais. Fui respondendo sua interrogação e ele assertivamente continuava. Ao fim seu veredito e a receita.

– Seu problema não é grave. Você deve apenas tomar no cu duas vezes ao dia. Aos sábados beije um cu leproso e chupe o caralho de um cachorro de rua. Estará curado em um mês.

– Como assim, questionei.

– Assim. Acerte o valor da consulta na saída, caso ainda não o tenha feito.

– Digo… como assim eu devo ir tomar no cu? – estava estarrecido.

– Assim ó, e então aquele velho senhor derrotado pela idade arriou suas calças e enfiou seu dedo médio em seu próprio ânus fazendo círculos no mesmo. Fez dois círculos com extrema destreza e tornou a vestir suas calças como se nada tivesse acontecido.

– Próximo, ele gritou em direção a sua secretária, indicando que a consulta havia terminado.

Sai de lá pensando no que havia acontecido. Liguei pra minha mãe e expliquei o ocorrido.

– Se ele mandou você tomar no cu, chupar o caralho de um cachorro e beijar um cu leproso então é o que você tem que fazer. Ele é um médico, deve saber o que faz.

Agora minha mãe falava palavrão. Quanta mudança, pensei.

Sem saber o que fazer e com as dores piorando a cada dia, acabei bolando um modo de poder enfiar o dedo médio direito no meu cu, o que não foi fácil devido meu peso. Mas assim eu fiz diariamente duas vezes ao dia.

Achar um leproso foi difícil, me fazendo ir até a Santa Casa perguntar onde eu podia encontrar um. Após descobrir o endereço de um chamado Anderson, tive que convencê-lo a me deixar beijar seu cu nos sábados. Isso me custou cinquenta reais por beijo. Ele estava precisando de dinheiro para seu próprio tratamento, mas exigi que ele tomasse banho antes dos meus beijos. Após três semanas ele me perguntou se eu não queria comê-lo também, mas não aceitei a proposta. Meu pau estava coberto por minha pança fazia tanto tempo que eu nem ao menos me lembrava como ele era. Aquele cu não valia o esforço, pensei.

O cachorro eu precisei convencer com biscoitos caninos, mas não foi tão difícil como se imagina. Cachorros são bem dóceis quando se brinca com seus caralhos.

Ao fim, acabei curado de minhas dores e fazendo de conta que nada daquilo jamais havia acontecido.

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Publicado às novembro 20, 2014 por em conto e marcado , , .
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