Essa Porra de Vida

O Quarto Escuro

quarto escuro

Em minha juventude eu havia sido um rebelde, um projeto de revolucionário. Havia lutado contras as mazelas do capitalismo, participado de greves. Durante a faculdade integrei diversas chapas de Diretórios Acadêmicos. Fiz paz, fiz amor.

Passarem alguns anos, e naquele tempo, quando eu completava meus trinta e oito, estava procurando emprego. As coisas estavam complicadas, diziam os jornais, a TV, o rádio. A internet nada dizia, não havia internet. E as pessoas se divertiam tanto quanto hoje. Não mais, tanto quanto, e isso já é o bastante, creio eu.

Mas eu procurava emprego e não estava nada fácil encontrá-lo. Um bom escondedor, era esse tal de emprego. Creio que com o passar do tempo ele perdeu a manha de se esconder, pois hoje em dia todo mundo o encontra.

Visitei os sindicatos de Sto. André e da Liberdade. Distribui currículos por toda Barão de Itapetininga, todo o Calçadão de Sto. André. Visitei agências de emprego na Mooca, em São Bernardo, São Caetano, Sé, Brás e em diversos outros bairros e cidades próximas de onde eu morava. E por próximo eu entendia qualquer coisa que ficasse a pelo menos duas horas de minha casa, como todo bom paulistano.

Preciso desabafar o quanto procurar emprego é uma tarefa triste. No sentido mais amplo da palavra. Acordar cedo, com pouca grana, sem muitas esperanças. As contas te chamando de caloteiro logo pela manhã. A geladeira faminta. Nem se masturbar você consegue direito. E há as filas nas agências de emprego, nos sindicatos, e todos estão como você, magros, de olheiras profundas, roupas puídas, conversando sobre as desgraças que lhes aconteceram. As mulheres que lhes abandonaram, os filhos sem perspectivas. Sentindo-se menos seres humanos.

Lá pelas tantas, finalmente me ligaram. Naqueles tempos ficávamos próximos ao telefone em casa. Haviam celulares horrorosos e terrivelmente caros, de modo que eu não conhecia ninguém que possuísse um.

– Gostaria de falar com o senhor Antônio. – dizia a voz imperativa, porém gentil.

– É ele.

– O senhor poderia comparecer a uma entrevista de emprego, segunda pela manhã, as oito?

– Sim! – não quis parecer afoito, mas creio ter sido.

Anotei o endereço, esperançoso. Fiz planos do que faria com meu primeiro salário. Qual conta pagaria, como renegociaria as coisas nos bancos. Precisava limpar meu nome no SPC/Serasa se quisesse voltar a ser cidadão.

Havia apenas eu e mais duas pessoas no dia e horário marcado quando a entrevista começou. Uma senhora de aproximadamente quarenta anos, bem vestida com um terninho vermelho e cabelo amarrado em coque adentrou com pastas e folhas em seus braços finos. Nos deu bom dia e agradeceu a presença de nós três. Nos parabenizou por termos sido selecionados apenas para a entrevista, pois de acordo com ela, a empresa tinha altos padrões de contratação. Nos avisou que iria dar detalhes da vaga somente ao selecionado, e nenhum de nós a interpôs. Precisávamos do emprego, de qualquer emprego.

As perguntas eram as mesmas de sempre.

Eu sinceramente não entendo os porquês dessas perguntas. Todos mentimos, é óbvio. As respostas sinceras nunca nos daria empregos. O que faço em meu tempo livre? Coço o saco e bebo cachaça nos bares com meus amigos pinguços. Porque saímos de nossos empregos? Porque não éramos bons os suficiente. Como lidamos com pressão? Terrivelmente, odeio ser pressionado, como todos nós. Não vejo defeitos em mim. Minha melhor qualidade é ser um bom meio campo no futebol de domingo com os mesmos amigos que bebem comigo no bar. Eu gostaria de receber o mesmo que o dono da firma. Mereço ser contratado porque tenho contas a pagar e comida pra comprar e um filho para o qual preciso pagar a pensão.

Mas uma pergunta foi diferente.

Ela queria saber o tamanho de nossos pênis, e também se ao limparmos nossas bundas, nós olhávamos o papel higiênico antes de jogá-lo fora. Respondi que tinha 16 centímetros, o que era verdade, para a primeira pergunta, e sim para a segunda.

A entrevista se encerrou após essas duas perguntas e ela avisou, elegantemente, que iria nos avisar dentro de dois dias sobre o resultado da entrevista. No dia seguinte entretanto ela me ligou, avisando que eu deveria levar meus documentos ao mesmo local da entrevista, a fim de ser efetivado. Me seria então revelado os detalhes da vaga.

Fiz o que me mandaram, e foi-me explicado o que eu faria.

– Você deverá ficar dentro de um quarto escuro, diariamente. Você começará seu expediente as oito e quinze, e sairá as seis e meia. Terá direito a uma hora e meia de almoço, quinze minutos de descanso durante a manhã, e mais quinze durante a tarde.

– Apenas isso? – questionei?

– Não diga apenas. É uma função de vital importância para nossa Companhia. Você está sendo contratado para realizar a principal tarefa desta empresa. E foi selecionado por causa de seus atributos impressionantes.

De alguma forma meu ego foi acariciado naquela hora. Perguntei o salário, que ainda não tinha sido revelado.

– Será de dois mil e seiscentos. Com hora extra paga em folha, mais bonificação por alcance de suas metas. Fora isso, você receberá vale alimentação no valor de seiscentos reais, convênio médico e odontológico, auxílio creche de mais seiscentos reais caso tenha filho menor de idade. Terá a sua disposição um carro cedido pela empresa com todas as despesas, como manutenção e combustível, pago pela empresa. No caso do carro, entretanto, a empresa se dá o direito de lhe descontar seis por cento do seu salário pelo benefício.

Meu Deus, pensei! O salário mínimo era setenta reais (sim, você leu certo, setenta reais, e sim, um dia nosso salário mínimo era de fato este). Eu iria receber mais de trinta e sete salários mínimos! Eu era capaz de transar com meu pai por esse dinheiro!

Comecei a trabalhar naquela tarde mesmo. E de fato minha função era apenas aquela. Entrar em uma sala, onde não havia móveis, buracos, janelas, nada. Era apenas um quarto pintado de preto fosco. Não havia saída de luz, tampouco interruptor. Nada.

A porta por onde eu entrava era completamente lacrada, feita de ferro fundido. Ela não ficava trancada, eu podia sair a qualquer momento, como para meu almoço ou lanche. mas de certa forma o seu barulho quando se fechava enchia meu peito de agonia. Um morto dentro de um caixão se sentiria como eu se pudesse.

Após uma semana de trabalho, veio Henrique, meu supervisor, avisar-me de que eu teria que fazer hora extra.

– Tudo bem pra você Antônio?

– Sim. Mas o que houve para eu precisar fazer hora extra?

– Nada demais, é que precisamos bater nossa meta este mês. Estávamos desfalcados de um funcionário, sabe como é…

– Ok.

O primeiro mês foi terrível e agonizante. Nada a fazer por horas a fio. Sentado no chão frio, imerso em um breu total. Eu perdia completamente a noção do tempo. Marcava as horas com o apito que marcava minhas pausas e saída. Eu pensei e repensei minha vida até aquele momento mil vezes.

Entretanto neste mesmo primeiro mês quitei minhas dívidas, e com as contas pagas, passei a consumir os gostos esquisitos das classes mais altas. Conheci em um restaurante vegetariano um senhor que se dizia budista e que me convenceu a conhecer seu templo. Lá aprendi a meditar por exemplo.

Depois de mais algum tempo, consegui me livrar do vício em cachaça. No ano que se seguiu passei a perceber que aqueles locais não combinavam com minha nova condição afinal. Tornei-me enólogo e apreciador de queijos, embutidos. Um apreciador daquilo que ficaria conhecido como nova culinária inglesa.

De volta ao trabalho no quarto escuro, passei a meditar por horas a fio, o que me trazia uma paz interior gigantesca. Trabalhar estava se tornando além de muito bem remunerado, uma terapia além de que qualquer psicólogo ou psicanalista. Mas então me chamaram novamente. Henrique me disse:

– Ficamos sabendo que você anda meditando no seu horário de trabalho.

– Sim! É revigorante Henrique! Sinto-me um homem novo!

– Desculpe, mas a diretoria me pediu para avisar que é expressamente proibido tal prática. Afinal de contas, se você medita, como vai dar conta de suas funções?

– Mas minha função é ficar lá dentro, isolado, sem ver nada, entediado, por horas e horas, Henrique! Que mal tem usar esse tempo em algo bom?

– Você já respondeu sua pergunta Antônio. Não da pra fazer as duas coisas da? Por favor, você é nosso melhor funcionário, não me force a lhe dar uma advertência, ou Deus me livre, demiti-lo. Nesse um ano e pouco que você está conosco, nossa produção triplicou! Estamos faturando horrores graças a sua performance. Não espalhe, por favor, mas até mesmo te indiquei a uma promoção!

– Mas produção de que afinal de contas?

– Ora. Como eu, um simples encarregado, saberia te dizer tudo o que produzimos, ou mesmo exemplificar tudo o que você sozinho produz? São tantas os ramos de nossa empresa, tantos os produtos que fabricamos e que entregamos na sociedade que é impossível descrever. Apenas lhe peço que continue assim Antônio. Você tem muito futuro no quarto escuro.

Aquilo me encheu de dúvidas, ao invés de saná-las. Eu não fazia a mínima ideia do que eu estava fazendo em meu trabalho, e pra ser sincero não me importava.

No fim concordei com Henrique e voltei para o quarto escuro, me arrastar por horas a fio no tédio, na solidão, na total falta de luz e conhecimento, sem saber porque nem para que.

No fim, me tornei assim, igual a você.

 

 

 

 

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2 comentários em “O Quarto Escuro

  1. Michele Viviane Vasconcelos
    outubro 16, 2014

    É, igualzinho a muitos de nós! Ótimo texto e reflexão.

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Publicado às outubro 16, 2014 por em conto e marcado , , .
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