Essa Porra de Vida

Foi-se um Mestre

rubem alves

Rubem Alves foi-se, e recebi a notícia, com um algo de tristeza, ingênua até.

Triste porque é um ser humano, e a morte ainda nos é triste, embora inevitável. Triste porque era um dos grandes. Não apenas um grande pedagogo, mas um grande humano, pois veja bem, sua pedagogia era marcada pelo olhar ao outro.

Um olhar para a criança, para o adolescente, para o aluno. Um olhar para o ser humano afinal. Sua pedagogia é marcada por colocar um ser humano diante do outro, ambos nus, e em construção. O professor está lá, o aluno está lá, mas antes deles, estão dois humanos, dois seres.

E esses dois precisam provocar-se mutuamente, com perguntas. E ninguém faz perguntas melhores do que as crianças. As melhores perguntas, diz Rubem Alves são delas: Porque a água fervendo amolece a cenoura e endurece o ovo? Quem foi que fez a Terra girar? Porque a chuva cai em gotinhas, ao invés de cair de uma só vez? Porque todo o vestido da Cinderela vira trapo à meia noite, menos, seu sapatinho de cristal?

Rubem Alves foi pastor, escritor, pedagogo, filósofo, e além de filósofo, era também anarquista. Um artigo de duas páginas comunicava mais que um livrão de trezentas dizia. Comparava a inteligência ao pênis.

O pênis é órgão flácido, deprimido, olha sempre ao chão e nada quer fazer. Mas, se for provocado, uma transformação ocorre, assume a forma de um foguete intercontinental, dispara com fogos de artifícios criando beleza e prazer.

A inteligência é órgão flácido, preguiçoso, nada quer fazer, olha sempre pra baixo. Mas, se for provocado, uma transformação ocorre, assume a dianteira da vida criando beleza e igual prazer.

E o prazer de aprender é gigantesco. O prazer de ler Dostoiéviski, Schopenhauer… o prazer de ouvir uma música. Os prazeres e as felicidades que a vida nos trás, como diz Brecht. O prazer de tomar um banho quente, ficar quentinho debaixo das cobertas. O prazer de fazer xixi.

Ninguém mais além de Rubem Alves seria capaz de comparar Dostoiéviski, Schopenhauer e Brecht a fazer xixi.

Em tempos tão raivosos, tão estranhos, onde as pessoas se juntam para espancar bandidos nas ruas, mas não para abraçar as vítimas, sua perda é ainda maior, e um vazio aparece onde antes havia tanta bondade.

Resta-nos então a esperança, e nas palavras deste grande provocador, a esperança é uma droga alucinógena.

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Publicado às julho 22, 2014 por em crônica e marcado , , , .
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