Essa Porra de Vida

O bons e velhos tempos…

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Eu ando tentando escrever algo que não seja sobre a Copa do Mundo e tals. Mas, Cristo, como tá difícil!

Se liga, e prest’atenção: você liga a TV e assiste a Copa. Sintoniza o rádio (alguém mais faz isso?) e ouve a Copa. Abre o jornal e lê a Copa. Abre um site qualquer e lá está ela, a Copa. Seus amigos falando dela, as pessoas no ponto de ônibus falando dela.

Estamos vivendo, assim mais ou menos, entre os jogos e tals.

Não que eu não goste de futebol. Mas também não posso dizer que adoro. Sou assim, meio indiferente. Feito o Garrincha quando a seleção perdeu para o Uruguai em 50. O Brasil em prantos com o Maracanazzo, choro sincero nos bares entre bigodes, empadas, cervejas, e quando perguntaram a Garrincha sobre a derrota brasileira, ele genialmente deu de ombros e disse: “É só um jogo de futebol. No próximo jogo a gente ganha”.

É o retrato irresponsável de uma época romântica, que eu não vivi. Aliás, romântica por isso, creio. Mas não importa. Real ou não, o romantismo vive, ao menos como lembrança de algo jamais vivido. Estou para dizer que pouco romantismo sobrevive a realidade.

Mas eu queria falar desse tempo. De de um tempo onde Garrincha chamava a Copa do Mundo de torneio mixuruco por não ter segundo turno. Onde ele distribuia dribles sem nenhuma objetividade, e ninguém o criticava por isso, muito ao contrário. Tempos estes onde Didi lançava Garrincha e ficava a rir vendo os adversários caindo de bunda no chão. Onde adversários como Sigge Parling, zagueiro sueco que tentou marcar um Pelé juvenil e menos imbecil, admite querer aplaudi-lo, após tomar cinco gols na moringa.

Nossa inocência como povo foi-se embora e a pureza de nossa terra foi lavada, comprada. O futebol virou marca e negócio, o samba ficou branco, com cara de europeu. O batuque do pandeiro tem tempo e compasso, escala e partitura. A garota de Ipanema foi a Paris desfilar e nunca mais voltou. O riso fácil de nosso povo virou motivo de bronca de um pai severo: “tá rindo de quê?”, nos perguntam os colunistas de revistas, os economistas, falando economiquês.

Mal sabem eles que só precisamos achar graça para rir e sorrir. Que a molecada que joga bola descalça na rua, arrancando o tampão do dedão nas calçadas, gostam de driblar e caçoar do amigo no chão, e que o futebol me pareceria muito mais bacana se continuasse assim. Perder um jogo nunca será tão humilhante quanto tomar um chapéu ou uma caneta, qualquer um sabe disso.

Mas por hora, isso já basta. No fundo, no fundo, a vida não passa mesmo de um jogo, um Lance de Dados como bem disse Mallarmé. E sendo um jogo apenas, aprendamos com o Anjo das Pernas Tortas, que perde-se hoje, ganha-se amanhã. Só não deixemos de ser quem somos.

De preferência, irresponsáveis de vez em quando.

 

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Publicado às julho 7, 2014 por em coluna e marcado , , .
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