Essa Porra de Vida

Call me a Dog

callme

– Fala Magal. – eu disse.

– Luca! Caralho! Quanto tempo cara! – eu não aparecia no bar do Matal há exatos cinco anos e meio. Um bom tempo – Um conhaque?

– Hoje não Magal.

– O que vai então? Uma breja, um uísque?

– Um café sem açúcar e uma água com gás.

– Só isso?

– Só isso.

Magal fez aquela cara que tão bem conhecemos dizendo que não está entendendo o que se passa, e foi até o balcão com seus copos e panos.

Olhei em volta. Cinco anos e meio era mesmo muito tempo. Na primeira vez que pisei neste bar, eu tinha apenas dezesseis anos. Minhas posses eram alguns centavos e muitas espinhas espalhadas pelo rosto, afugentando meninas e amigos. Foram tempos difíceis aqueles.

Hoje o bar estava mudado. Magal estava mudado. Eu estava mudado.

Havia agora uns sanduíches na vitrine, e também salgados, não apenas cerveja e cachaça. Magal estava com todos os cabelos brancos. Não havia um único fio de cabelo preto por lá. Seus olhos também pareciam cansados demais, mas guardei isso pra mim mesmo. E eu estava sóbrio há cinco anos e meio. Meu último porre havia sido aqui mesmo, e na ocasião acabei brigando com alguns bêbados, e perdido dois dentes do ciso.

Procurei com os olhos alguém das antigas, mas apenas garotos estavam circulando. Muitos cabelos espetados e penteados com gel. Eu estava vendo mais sorrisos agora do que em todos os anos que frequentei o bar do Magal junto. Garotos, garotas, gays, todos sorrindo com cervejas de nomes engraçados a mão.

– A vizinhança mudou por aqui – eu disse.

– Novos tempos Luca. Novos tempos. O pessoal da antiga aparece de vez em quando. Agora vem essa molecada gastar o dinheiro dos pais.

– Sei. Parece tudo mais calmo agora.

Bares não eram lugares felizes. Todos os rostos que se vê são arqueados, cheios de rugas. E há longos períodos de silêncio. Era o que eu pensava ao menos.

Aqueles sorrisos todos, mesmo que falsos, fizeram-me lembrar de minha juventude. De meus sonhos todos. Quanta tolice…

Em algum momento de minha vida eu havia me convencido de que era um gênio ainda não revelado, como nos filmes. Eu pensava que a qualquer momento algum poema meu, algum conto meu seria descoberto. Por isso eu deixava poemas espalhados pela cidade, em todos os bares que eu ia.

Eu passava as tardes ouvindo Blind Melon, Soundgarden, Mad Season, Pearl Jam, enquanto lia Bukowski, Burroughts, Fante, Kerouac, Ginsberg, Nietzsche. O próximo ano será o do meu estouro eu dizia a si mesmo, e meu peito rosnava de vontade, cheio de força, vigor. Então o próximo ano vinha e nada acontecia. Mas havia o próximo. E o próximo. E o próximo.

Então fiz trinta, e o ano mágico que eu passei a juventude esperando nunca veio. O coração começou a emitir sinais de que algo estava errado, e comecei a duvidar de mim mesmo. Talvez eu não fosse o que eu pensava ser. Talvez eu fosse apenas um cachorro pulguento vendo a si mesmo como um lobo.

E ao invés de um gênio excêntrico eu era apenas um bêbado chato. Aquele primo que está sempre a ponto de vencer na vida. Mas que nunca passa disso. Precisei então arrumar um emprego em uma fábrica, sendo esfolado vivo por oito horas diárias,  foras as horas extras; precisei ainda parar de beber, comprar móveis, roupas, copos e pratos para as visitas de fim de semana, sapatos desconfortáveis e baratos. Passei a ler apenas apenas por diversão, pensando, tentando encontrar o que me faltou e sobrou para esses filhos da mãe como Walt Whitman. Nunca saberei…

Quando é que isso acontece? Em que momento nós temos a certeza de que nosso tempo já passou? De que nossos sonhos mais secretos e valiosos serão realizados por outras pessoas que não nós?

Quando?

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Publicado às fevereiro 10, 2014 por em conto e marcado , , , .
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