Essa Porra de Vida

Rolevolução

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Os Rolezinhos – sem aspas por favor – estão fazendo aquilo que a classe média, medíocre, universitária, não fez. Revolução.

A favela ficou invisível por tempo demais. Tempo demais. Eu sei, porque é de lá que eu venho.

A classe média não gosta da favela. Odeia pobreza, tristeza, colégio público, café de padaria, busão lotado.

Odeia roupa colorida, óculos espelhado, cabelo pintado e desenhado. Odeia gíria, dialeto. Não suporta funk.

Do alto dos muros dos condomínios do Itaim Bibi, Morumbi, Jardins, Pacaembu, Perdizes, Pinheiros, Moema, olhos azuis observam com medo a movimentação estranha desses negros e pardos coloridos que se aglomeram em volta de seus templos de prazer. E agora?, pensam eles. E agora? O que fazer, quando o presidente da Ambev for comprar um iPhone 67 para seu filho e for obrigado a sentir o cheiro de Axe Dark Temptation?

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A molecada favelada não foi pra rua. Foi pro shopping dar rolê. Está incomodando com aquilo que mais incomoda a classe média e alta. Sua pobreza. Essa gurizada está levando sua pobreza para locais antes proibidos. Está invadindo sem pedir permissão, sem se desculpar, locais que não foram construídos para eles. Nenhum queixa de roubou ou furto é feito pelos lojistas, mas mesmo assim, a presença desses despossuídos faz com que as portas se fechem, fregueses corram, a polícia se prontifique. 

Quando fuzilaram minha casa e a de meu vizinho lembro da polícia não agir tão rapidamente assim. Mas talvez seja somente minha memória ficando senil.

Agora, a entrada da molecada em shopping centers está formalmente proibida.  No shopping JK Iguatemi, do empresário Carlos Jereissati, seguranças do shopping fizeram uma triagem para definir quem poderia entrar e quem deveria ficar de fora. Negros e pardos pobres, fora.

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E o pior, é que há gente como Fabio Magalhães, encarregado de compras na Empresa Prakolar Rótulos e formado em Comércio Exterior na Uninove – de acordo com seu próprio perfil no Facebook – que sai com a seguinte pérola de sabedoria:

“Você também está achando a repressão aos “rolezinhos” no shoppings paulistanos um novo ‘apartheid’?
ENTÃO FODA-SE!
O melhor modo de se inibir a criminalidade em projetos de futuros bandidos e marginais é assim mesmo. Já que infelizmente não se pode matar esta sub espécie de gente. Mas se morresse também não faria falta nenhuma!”

Preciso continuar?

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20 comentários em “Rolevolução

  1. Neemias Mc
    janeiro 13, 2014

    Ótimo texto sobre o assunto.

    • Rafael
      janeiro 13, 2014

      muito obrigado neemias!!!
      volte mais vezes por aqui!

  2. Pingback: Rolezinho, segregação social e a hipocrisia | Scrotos Breja & Ressaca

    • Rafael
      janeiro 13, 2014

      obrigado pela citação brother!!!
      abração!

  3. Abrahão Amorim
    janeiro 13, 2014

    Concordo em parte, eles vão aos centros de compras não é pra se divertir e sim, pra tumultuar e amedrontar a população, e no meio tem sim, marginais, falo porque conheço alguns moleques que participam dos tais “rolês”. Este movimento tem cunho ideológico claro(luta de classes) tão fomentada pela esquerda. Coitados, estão sendo manipulados e usados e não percebem. Um dos objetivos, envolver a polícia pra dizer que a mesma é violenta.

    • Rafael
      janeiro 13, 2014

      Mas amedrontar com o que Abrahão? A polícia os revista e não encontra armas de nenhum tipo.
      O debate é mais amplo que a discussão entre direita e esquerda.
      Há um excelente documentário sobre funk ostentação, onde é feita uma análise da periferia.
      É explicitado que o jovem favelado de 2013 tem outros desejos e outras formas de manifestação que o jovem favelado de 1980, graças ao crédito fácil e aumento real de sua renda.
      Os espaços que este garoto/garota de 2013 deseja e precisa ocupar não é mais apenas sua periferia. Ele quer ser visto, quer ser ouvido, quer ser notado.
      Eis o espanto portanto da classe média com os rolês.
      E como bem disse um internauta:
      quando é pobre é arrastão, quando é rico é flashmob.
      E eu não vi nenhum rapaz sendo expulso de shopping por fazer flashmob…

      • Marcelo Cacimiro
        janeiro 13, 2014

        Oi Rafael! Creio que se fosse apenas para passear ou ir ao cinema, não precisa combinar isso com mais 7 mil. É só chamar o camarada, a galera, e vai. Não há nenhuma necessidade de se aglomerar uma multidão pra isso. E se você olhar bem as fotos, verá gente de todas as cores (as fotos acima mesmo retratam 50/50) usando roupas caras e de gife. Sejamos francos: você já viu essa galera ser importunada no shopping quando não estão em meio a 7 mil pessoas? Abraços!

      • Rafael
        janeiro 13, 2014

        Tem razão Marcelo, tem razão, mas em partes!
        Veja bem,
        Analise a cena, toda ela.
        Milhares de pessoas se reúnem para ir ao shopping, e isso causa comoção popular. Porque?
        Porque a população fica estarrecida?
        Porque eles são proibidos de entrar?
        O ato em si se torna menor diante dessas perguntas e do que elas revelam.
        Mas obrigado pelo comentário! É um outro lado da moeda bem analisado!
        Abraços.

  4. Eu
    janeiro 13, 2014

    Vc está errado quanto a definição de classe media….Não existe ninguém de Classe media morando no Morumbi….

    • Rafael
      janeiro 13, 2014

      Refiro-me a ideologia classe média.
      Relendo o texto tvz isso realmente não tenha ficado claro!
      Abraço.

  5. Suzana Luchesi
    janeiro 13, 2014

    Assino embaixo de tudo o que você disse, Rafael. Até porque eu já vi rolezinho de playboy riquinho no Shopping Eldorado (vira e mexe acontece, aliás mês que vem vai ter a semana dos rolês de quem passou na Fuvest) e NINGUÉM se preocupa com 1000 branquinhos zoando, berrando, correndo ou cantando funk ali.

    • Rafael
      janeiro 13, 2014

      E depois vem coxinha feito o Cauê Moura dizendo que “shopping é propriedade privada e mimimi” sem parar pra refletir um segundo sequer no contexto do episódio!
      Valeu a participação!

  6. Poli
    janeiro 13, 2014

    Esta claro!Registro da Revolução atual.

    • Rafael
      janeiro 13, 2014

      Relendo agora Microfísica do Poder de Foucault, acabei de lembrar que o autor já havia prenunciado os manifestos de classes populares sem o auxílio da elite intelectualizada ainda nos anos 80, em seu artigo sobre justiça popular.
      O cara manjava mesmo…

  7. Bruno Kelmer de Carvalho
    janeiro 13, 2014

    Eu até entendo que todos tem o direito de ir e vir aos espaços “públicos”. Mas o que vai fazer no “Templo do consumismo” alguém que não tem um puto para gastar? Por quê não marca na praia?

    • Rafael
      janeiro 14, 2014

      A pergunta é porque eles não possuem um puto para gastar no shopping?
      Porque despossuídos não são bem vindos?

      • Bruno Kelmer de Carvalho
        janeiro 14, 2014

        Se eles não tem um puto a culpa não é minha que estudei MAIS DE 10 ANOS + o colégio para garantir meu lugar ao sol. E não me venha com esse papo de coitadismo que eles não tiveram oportunidade. Chega mais perto e veja se alguém alí quer alguma coisa com estudo.
        ROLEZINHO PARA CAPINAR UM TERRENO BALDIO, OU ESTUDAR NINGUÉM QUER, NÉ?

      • Rafael
        janeiro 14, 2014

        Eu não o culpei. Calma cara!
        Mas a questão está no ar… ainda não foi respondida!

  8. Antônio de Noronha
    janeiro 14, 2014

    Sou do tempo em que “Revolução” tinha um ideal, almejava-se algo. É duro ver que hoje em dia qualquer movimento que seja reprimido pela policia receba o nome de “Revolução”.

    • Rafael
      janeiro 14, 2014

      Já disse Foucault, nos anos 80 que o operário sabe bem o que quer. A classe baixa tem seus desejos e anseios e não precisa do consentimento ou da compreensão da classe média/alta para realizar sua própria revolução.
      E mais. Você pode não saber, não ter conhecimento disto, mas mesmo que de modo consciente você não saiba, fechar os olhos e respirar profundamente com a coluna ereta é meditação. Não saber o que está fazendo não impede você de fazê-lo.
      No mais talvez lhes falte um ideal por eles serem mal escolarizados nesses últimos vinte anos…

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Publicado às janeiro 13, 2014 por em crônica e marcado , , .
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