Essa Porra de Vida

Prisioneiro da grade de ferro – parte III

auschwitz-birkenau

Na primeira parte deste post eu terminei com duas perguntas. A primeira pergunta foi respondida aqui.

Foi porém, com outro ponto de interrogação. Que herói é este que trabalha de oito a dez horas por dia durante cinquenta anos em média para acabar a vida recebendo como aposentadoria um salário mínimo incapaz de pagar apenas o aluguel na periferia de São Paulo. O herói não deveria vencer no final? Não é isso que Hollywood ensina?

Enfim, a segunda questão é acerca da capacidade de recuperação social de nosso sistema prisional. Antes de expor meus argumentos, vou descrever uma cena a vocês.

Um local de altos muros onde pessoas ficam confinadas, vigiadas por cães e homens fortemente armados. Há superlotação no local. A comida é escassa, e geralmente estragada. Todos os residentes se parecem entre si, em geral pessoas com pouca escolaridade. O saneamento básico não existe. O chuveiro é sempre frio, mesmo no inverno. Mortes no local são extremamente comuns. Aliás, mata-se por motivos banais. Alguns trabalham sem receber salário em troca.

Descrevi pra vocês o Carandiru? O Presidio Central? Não.

Descrevi o campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau. 

Eu não duvido nem por um minuto que os campos de concentração nazista foram infinitamente mais desumanos e horrorosos que os presídios brasileiros. Mas também não duvido nem por um minuto que há semelhanças igualmente desumanas e horrorosas entre ambos os sistemas de confinamentos. E isso, em pleno século XXI deveria ser impensável. Deveria, mas não é.

E o pior, é que talvez você esteja lendo essas linhas e pensando que o fulano que está em qualquer presídio brasileiro merece o tratamento que recebe. Já escrevi no post anterior o fato assustador, ao meu ver de que as condições sociais não são iguais em nada. E basta assistir um documentário, olhar fotografias pelo Google, ou caso você tenha coragem suficiente, visitar um presídio real, para constatar, como bem disse Marcelo Freixo, que os presos confinados são em geral negros, pobres da periferia, mal escolarizados, alguns inclusive semi analfabetos.

O homem que recorre a criminalidade e a violência, erra e é culpado por seus atos, mas não podemos fazer de conta que suas circunstâncias materiais não são beeeem diferentes das regalias da classe média. A criminalidade é saída para muitos garotos e garotas com baixa escolaridade. E quando são presos, continuam com a baixa escolaridade que tinham antes de serem presos.

Se saírem da cadeia voltarão para a sociedade com as mesmas características que tinham quando entrou. Continuaram pobres, semi analfabetos, com pouca ou nenhuma esperança. Com o agravante de terem feito uma rede de contatos com diversas facções criminosas que o amparará quando o ex detendo solicitar.

E porque isso é um problema SEU? Bom, se o simples fato de que antes de ser um preso, ele é também um ser humano como você, o ex presidiário que foi encarcerado por assalto a mão armada, saíra de lá, provavelmente não encontrará emprego, e da próxima vez que ele for cometer um assalto talvez ele te enfie uma bala no meio da fuça para eliminar as testemunhas que podem levá-lo de volta ao presídio.

Entende agora?

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Publicado às janeiro 7, 2014 por em crônica e marcado , , .
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