Essa Porra de Vida

A tristeza que cala profundamente no coração de muitos de nós.

meida

 

– Boa noite Rita, Beth, Elisa. – disse Juliano, abrindo a porta de seu kitnet. Seu corpanzil de 131 quilos estava suado, cansado, exausto e a camisa por baixo do blazer suava em largas rodas de gordura embaixo do braço e nas dobras da barriga. Afrouxou a gravata, aliviando a papada de seu pescoço, respirando fundo e de modo ansioso, fadigado.

Trancou a porta atrás de si, deixou a pasta, cheia de apólices sobre a mesa, e chamou por Jorge. Onde estava Jorge?, pensou preocupado. Talvez tinha dado uma saída e logo voltara.

Descalçou os sapatos gastos, tirou a camisa e a jogou, junto com a gravata no sofá. Ligou a TV e ficou inerte por alguns minutos, trocando os canais, olhando rostos, sorrisos, bundas, pernas, carros, perfumes, músculos. Levantou-se, foi até a geladeira e abriu uma cerveja para si.

Pegou atrás do tanque de roupa seu regador, encheu com água da torneira e foi até Rita, um antúrio vermelho deixado próximo ao sofá.

– Como foi o dia Rita? – bebeu um gole e despejou água sobre a planta – O meu foi horroroso. Realmente horroroso. Nada deu certo no trabalho. Liguei para toda a cidade e não fechei nenhum seguro. Nenhum… – acariciou as pétalas de Rita como um adulto afaga o cabelo de uma criança, continuando a regá-la. Sorriu afetuosamente. – Melhor agora? Estava muito calor não é? – e foi até Beth, um ficus em forma de bonsai deixado cuidadosamente sobre a mesa, próximo de onde agora estava a porta.

– Olá Beth. Deixa eu ver como você está. – Beth tinha atraído formigas semana passada por causa dos restos de comida, e isso deixou Juliano preocupado e arrasado com o senso de culpa. Devia ter limpado a mesa após comer. Também a regou. – Parece que elas foram embora não é? Ainda bem. Dormi mal duas noites, preocupada com você. – Juliano vasculhou minuciosamente as raízes de Beth. Não pode comprar veneno para formigas, pois não estava lá com muito dinheiro. Então veio a ressaca moral, por ter comprado cerveja, mas não o veneno para Beth. Mas Beth compreenderia, ele pensava. Beth é um sábio bonsai.

Foi até Elisa, um vaso de violetas pendurado na parede, próximo a porta de entrada do kitnet.

– Como está minha querida? – aproximou-se com cuidado e disse sussurrando – Você sabe que é minha preferida não é? – e deu um risinho cúmplice. Juliano recostou-se na parede, movendo-se com enorme destreza para seu tamanho. Pôs-se a regar Elisa e a tagarelar com ela:

– Acredita que o Anselmo veio falar comigo hoje? – Anselmo era o supervisor de Juliano – Disse que não bati minha meta esta semana e que precisava me esforçar mais. É fácil dizer isso, mas quando eu vendi o dobro no mês retrasado ele não veio me dar os parabéns sabe Elisa. Só quer saber de cobrar e cobrar. A Antonia, lá do escritório disse que ele está tendo problemas no casamento sabe, por isso está estressado. Mas o que eu tenho a ver com isso? Se ele não ficasse de caso com a menina da recepção não teria problemas em casa. Mas quem somos nós para julgar não é? Vai saber o que a mulher dele faz também… as vezes ela uma baita de uma vagabunda que não sabe segurar seu homem em casa… é uma pena o Anselmo não ser gay sabe Elisa. Aposto que eu poderia fazer ele feliz… Mas quem vai gostar de mim também Elisa… Olha o meu tamanho. Acredita que eu só perdi um quilo depois de todo aquele regime que eu fiz? Acredita? Só um quilinho! Lembra do Ademir? – Ademir era o ex de Juliano – Ele viva reclamando do meu peso. Ele não sabe o quanto é difícil emagrecer. Só sabia dizer o quanto eu estava gordo, o quanto eu era ridículo. Ele faz tanta falta Elisa… tanta falta… – os olhos de Juliano marejaram de água, ao que ele prontamente tratou de enxugar, para após terminar sua cerveja com um grande gole – Você acha que eu sou tão gordo assim Elisa? – dizendo isso levou as mãos a barriga, olhando para Elisa de modo constrangido – Minha família tem tendência a engordar, você sabe. Mas o Ademir não era nenhum Brad Pitt também pra me humilhar tanto. Se eu fizer um regime eu posso emagrecer, mas e ele? E ele que é vesgo? Isso não tem conserto. Mas eu amava ele mesmo assim.

Sem que nenhum barulho se fizesse ouvir, Jorge chegou e roçou seu rabo felpudo nas pernas de Juliano.

– Jorge! – e se abaixou com certa dificuldade para pegar no colo Jorge, um belo gato angorá, cinza e branco – Onde você estava Jorge? Você sabe que eu fico preocupado quando sai assim. Deixa eu ver se você tem ração.

Caminhou até próximo da pia de louça e viu que não havia ração no potinho de Jorge.

– Por isso… está com fome é? Deixa eu resolver isso. – e despejou um pouco de Whiskas para Jorge, que ronronou e se debateu levemente para descer do colo de Juliano. Quando foi ao chão, acocorou-se e começou a matar a fome. Juliano aproveitou e trocou também sua água velha e morna por água nova e fresca.

Deu então as costas a Jorge e voltou a jogar-se no sofá, ainda sem tomar banho, pensando no que iria comer. Estava realmente cansado para cozinhar, o dia havia sido estressante. Decidiu-se por uma pizza, mas prometeu a si mesmo que iria comer apenas dois pedaços e que levaria mais dois para o almoço do dia seguinte, para não estragar seu regime. Ligou para Fioruth Pizzas e pediu uma meia portuguesa, meia calabreza e em meia hora o motoboy a entregou. Pagou os vinte e cinco e cinqüenta, pegou uma coca cola na geladeira e jantou assistindo a novela, torcendo para que uma fulana apanhasse de uma cicrana, como ocorre em todas as novelas.

Quando a novela terminou, terminou também a pizza, e a coca. Juliano estava com as mãos e boca engorduradas, e uma profunda tristeza lhe sobreveio. Sem camisa, suado e engordurado como estava, lembrou-se das pessoas lhe olhando atravessado no metrô, rindo pelas suas costas em restaurante, as piadas no colégio, no escritório, de seus clientes, e ele desabafando com plantas e gatos, seus verdadeiros amigos.

Juliano não havia como saber, mas essa é a tristeza que cala profundamente no coração de muitos de nós.

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2 comentários em “A tristeza que cala profundamente no coração de muitos de nós.

  1. Talita
    janeiro 28, 2014

    Me levou as lágrimas…

    • Rafael
      janeiro 28, 2014

      muito obrigado talita!!!
      fico sinceramente feliz em saber que um texto meu foi capaz de emocionar alguém!
      seu comentário me deu forçar enquanto escritor! muito obrigado mesmo!!!

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Publicado às dezembro 23, 2013 por em conto e marcado , .
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